Lutando, dançando, brincando, cantando:

Sobre a arte de caminhar pela vida com a capoeira

por Ricarda Bruder

Sem Paulo Siqueira, residente em Hamburgo desde 1984, faltava um instrumento importante à orquestra da capoeira na Europa. Ele conseguiu chamar à atenção tanto da imprensa na Alemanha como também no Brasil. Como músico fundou o grupo Favela que apresentou o álbum The Voice of Capoeira. Realiza com o grupo Abolição apresentações em palco de capoeira e de música afro-brasileira. Como um dos fundadores do movimento CapoEuropa, que reúne vários mestres de capoeira trabalhando na Europa, organizou em Hamburgo a maioria dos até hoje no Brasil conhecidos Encontros Internacionais de Capoeira que se realizam anualmente desde 1987. E last but not least é também professor na sua academia em Hamburgo e em Hanôver. O seu trabalho é uma fonte importante para o desenvolvimento da capoeira na Europa e para o seu reconhecimento no Brasil. Capoeira é o 'jogo´ acompanhado por música que os escravos desenvolveram para disfarçar a sua luta mortal como dança. Depois da abolição da escravatura, a arma do escravo passou a ser arma do marginalizado. O famoso mestre Bimba apresentou nos anos 30 uma capoeira modificada e assim conseguiu a liberação da sua prática. Pastinha foi outro famoso mestre que tentou guardar a tradição na hoje chamada Capoeira de Angola. Os outros professores à frente mencionados são mestres de capoeira que também frequentam os Encontros Internationais em Hamburgo. Ricarda Bruder falou com Paulo Siqeira para Matices.

Matices: Como descreve você as diferentes tendências que existem na capoeira?

Paulo Siqueira: Tem dois estilos de capoeira. A Capoeira Regional, que a gente também chama de Bimba, vai na tendência da luta e trabalha muito a parte física e atlética. Na Capoeira de Angola as pessoas procuram ficar com a parte tradicional que é a parte mais básica de ritmo e de cantos. E daí já saem várias outras tendências, porque a capoeira não é estática. Ela evolui em conjunto com o professor e vai se modificando de acordo com o lugar, adaptando-se a situações novas. Aqui na Europa por exemplo vão se criando movimentos novos. A tendência mais nova é a incorporação da Capoeira de Angola com a Capoeira Regional, a mistura, a junção das duas. A gente a chama moderna ou contemporânea.

Matices: E como você chamaria o seu próprio estilo?

Paulo: O que eu faço é essa capoeira mais moderna. Ela tem a luta, mas passa a não ser violenta, é bem mais solta e tem a 'brincadeira´ dentro dela. Eu desenvolvi esse estilo porque tive influência das duas, Regional e de Angola. A gente hoje em dia ainda não tem uma definição do que é isso. Talvez possa se chamar 'Capoeira Angonal´. Mas eu não posso definir a minha capoeira. É capoeira, jogo capoeira!

Matices: Existe também uma capoeira competitiva, não é?

Paulo: Sim, tem campeonatos de capoeira e tem uma Federação e uma Confederação de Capoeira no Brasil. Se você participa pela Federação de Capoeira, tem que fazer campeonato regional, estadual e nacional, por classes de peso e de grau. Tem cordas e tem a nomenclatura dos movimentos. As lutas competitivas da capoeira são baseadas nas lutas asiáticas como o Karate por exemplo.

Matices: Você acha que os campeonatos de capoeira podem estragar o que a capoeira antigamente era?

Paulo: Eu não gosto do campeonato. Também não faço parte da Federação. Mas olhe, o campeonato de capoeira existe desde que Bimba criou a Capoeira Regional, para a legalizar como desporto nacional. Para legalizar um desporto tem que haver competição. E a Capoeira para ficar legal teve que estabelecer campeonatos e criar a Federação. Agora já querem tentar levar a capoeira até as Olimpíadas. O brasileiro às vezes sonha demais, né!

Matices: Então você acha que esta legalização foi o ponto de partida para o sucesso da capoeira?

Paulo: Vou dizer uma coisa. O problema é que o Brasil é um país racista. A capoeira foi proibida porque dava identificação ao negro ... o Samba também. Tudo que dava identificação ao negro foi proibido e era ruim. No futuro, a capoeira talvez possa dar uma identificação ao brasileiro. Mas no passado ela foi muito combatida. O Brasil é um país racista. Eu sou negro, eu é que sei. Se você ligar a televisão, você pensa que está na Europa. O preto não faz nada, nem escova os dentes, nem toma cerveja. Você lê um jornal ou uma revista, os meios de comunicação e vê como o Brasil ainda é um país racista. O negro só serve para jogar a bola e para tocar tambor. O negro está presente, mas ele não tem chance de atingir os mesmos meios como o branco. Por quê não posso fazer isso ou aquilo? Ou por quê não posso entrar em certos lugares? Por quê? A gente pode ficar puto da vida por causa disso. Só quem sabe é quem passou. Por exemplo, para dar aulas em certos lugares, o professor tem que ser um branco, não pode ser um preto. Numa escola ou num clube 'bacana´, o preto não vai dar aula. O director não quer, de jeito nenhum. Bimba deu um empurrão à capoeira, porque ele fez uma escola e deu aula ao branco. Aí a capoeira passou para a classe média, ficou sendo uma coisa oficial. Imagine a sua mãe se você dissesse que queria fazer capoeira:"Minha filha vai fazer capoeira? 'Tá maluco? Isso é coisa de negro, de bandido", né! De setenta para cá, Bimba já teve aluno que estudava para professor de educação física. Aí a sua mãe já dizia:"Ah, olhe um professor de educação física! Minha filha já pode fazer aula com ele." A capoeira ficou sendo aceita também pela classe dominante. Só que isso também foi porque a capoeira começou a fazer sucesso no estrangeiro como na Europa, por exemplo. Eu contribui um bocado para isso! Assim que a capoeira está na Europa, ela também é boa para o Brasil, né!

Matices: O sucesso da capoeira no estrangeiro é importante para você pessoalmente também?

Paulo: Sim, claro! A capoeira está forte aqui na Europa, isso também é bom para a gente. A capoeira vem do escravo ... da gente ... porra ela está fazendo um sucesso na Europa! Aquilo é meu também. Sou capoeirista, sou negão, vou ficar orgulhoso! Foi minha gente que fez essa porra aí.

Matices: Como funciona a comunicação entre os mestres?

Paulo: Mal! Mal para caramba! Os grupos não se misturam muito e as vezes até se dão mesmo mal. Também é uma forma de se protegerem, de protegerem o seu território. Os grupos de capoeira têm a sua história. Antigamente quem pertencia a um grupo não deixava entrar ninguem que pertencia a um outro grupo vizinho. Saiu uma tese de um historiador que fez uma pesquisa baseada nos livros penitenciários, do estilo:”Deu entrada no dia de hoje um negro, escravo, de Senhor tal e tal. Foi preso por fazer capoeiragem no lugar tal e tal.” Aí se vê que os negros usavam a capoeira não só como luta de libertação contra a escravidão mas também como meio de disputa entre eles. Isso está no sangue da gente e você encontra o mesmo problema na África. Na Nigéria, por exemplo, as etnias estão só em luta entre elas.

Matices: Mas sem comunicação os capoeiristas não podem lutar pelos seus direitos como por exemplo o de ensinar numa escola.

Paulo: Quando se encontram vários mestres, eles conversam, mas eles não chegam num ponto em comum. Por um lado é bom para a capoeira, porque ninguém toma conta! A capoeira não pertence a ninguém, não pode chegar por exemplo a Coca-Cola e querer tomar conta. Para o Europeu ou para o Asiático tem que ser tudo certinho. Na capoeira não é assim, ainda bem! Ninguém vai dizer:"Eu sei! Agora tem que ser todo mundo igualzinho!" O quê? Igualzinho? Imagina uma coisa com todo mundo igualzinho. Porra! Não! Eles fazem o seu e eu faço o meu. Na capoeira, as pessoas têm direito de escolher e de se adaptar com quem se gosta. Um cara que não sabe da minha vida pode-me dizer o que eu tenho que fazer? Porra! 'Tá maluco! De jeito nenhum! Eu trabalhei quinze anos aqui com capoeira, eu não preciso disso. A gente é temperamental como o africano. E o capoeirista é o cara que gosta de tomar a sua cerveja, fumar cigarro, fumar bagulho, ficar na boemia. Esses são os verdadeiros capoeiristas que mantêm a tradição. O capoeirista é o cara mais vivido da rua, com mais experiência de vida. Ele já passou muita dificuldade, já dormiu na rua, debaixo da ponte ou dentro do trem. Ele já passou fome, foi tentar fazer a vida, deu mal, foi não sei aonde ... . A maioria dos capoeiristas da minha geração passaram por tudo isso. Hoje já é um pouco diferente, porque ser professor de capoeira já é uma profissão. No Brasil 50% das escolas têm capoeira para crianças.

Matices: Qual é o papel da música na capoeira?

Paulo: A música é fundamental, claro. Sem música, não tem capoeira. Antigamente se tocava o tambor. No princípio desse século, as pessoas se uniam nos lagos, por exemplo, para fazer rodas de capoeira e festas de música. A partir daí se incorporou o berimbau como o instrumento mais importante na capoeira. Hoje em dia o mais difícil é que já ninguém joga com ritmo. Então começamos a dar aula de música, porque como o pessoal daqui não conhece o samba ou o carnaval é mais difícil aprender o ritmo, e as letras são em português e muita gente não sabe português. Agora no Brasil também já se dá aulas de música. É uma novidade que saiu daqui. Pergunta ao Marrom se ele alguma vez teve uma aula de música; agora ele dá aulas de música.

Matices: Há músicas que cantam a história escravagista do negro como por exemplo esta: As vezes me chamam de negro/ pensando que vão me humilhiar/ mas o quê eles não sabem/ é que só me fazem lembrar/ que eu venho daquela raça/ que lutou pra se libertar/.../. São bonitas mas ficam estranhas quando um aluno alemão as canta. Você ensina essas músicas aos seus alunos?

Paulo: Não, nem um brasileiro branco pode cantar essas músicas. Hoje na aula nós cantamos -Por favor não maltrate esse negro/ esse negro foi quem me ensinou/ esse negro do cabelo grande, com a barba pelada é meu professor/.../- eu canto me espelhando na música. Eu falo isso para os meus alunos:"Não decorem a música, porque a música de capoeira tem um sentimento e você tem que cantar com sentimento!" Quando alguém canta uma chula como: Uma vez/ perguntaram seu Pastinha/ o quê é a capoeira/ .../ eu falo para ele:"Você 'tá cantando isso para quê? Decorou, não 'tá sentindo nada!" Ele pode cantar -O la uê la e la- ou -Paraná uê Paraná- mas cantar uma chula, os fundamentos da capoeira, puxar uma coisa muito forte, não pode. Isso só pode cantar o cara que é cantador. O Sorriso, por exemplo, é cantador. Quando ele puxa uma chula de capoeira todo mundo pára para escutar o que está falando. Outros como o Grilo não podem cantar, porque não sabem cantar, então não cantam. Eu já falei para ele:"Não canta aqui na minha roda não!" Mas se você tiver o sentimento dentro de você, pode cantar, que o sentimento vai passar e todo mundo vai parar para te ouvir.

Matices: Qual é a experiência mais importante que as pessoas podem ter com a capoeira?

Paulo: A base da capoeira se chama integração! No Brasil, as pessoas vão para a capoeira para conhecer gente. As vezes uma pessoa é antisocial, as vezes não conhece ninguém, não consegue falar direito. Na Capoeira ele descobre uma família, faz amigos mesmo. As crianças da rua têm a chance de fazer uma coisa creativa.

Matices: Você aqui também trabalha com crianças e jovens. A capoeira é uma ajuda para os seus problemas?

Paulo: O trabalho que eu fiz aqui com um grupo de jovens criminais fazia parte de um projeto social. Não funcionou, porque era um negóçio programado pelo 'Sozialpädagoge´. Me respeitavam mas como não me tinham procurado era mais uma obrigação e não conseguimos continuar depois do projecto. A relação que eu tenho com os alunos é diferente. Quando eu perco um aluno, para mim é uma miséria. O aluno, ás vezes, não entende. Para ele é normal ir treinar para outro lado. Mas o professor sente, ele perdeu um pedaço dele.

Matices: Como foi a sua experiência na Alemanha e com os alunos alemães?

Paulo: No começo foi mesmo ruim. Eu aqui fui um pioneiro, quando cheguei ninguém sabia o que era a capoeira. Pensavam que era uma meditação, dança da barriga, tudo menos capoeira. Já melhorou muito, as pessoas já estão entendendo, já tem literatura. Também fui uma pessoa que abriu os caminhos para os outros. Eu tive que cortar, ir desbravando o mato, pisando na cobra, levando mordida de cobra, para depois o outro já não pisar mais na cobra. Tive muitas dificuldades, passei muitas coisas ruins, mas para mim foi bom, acrescentou muito à minha vida. Me admiram porque estou esse tempo todo aqui. Se eu estivesse no Brasil já tinha alunos formados dando aula. Aqui não é assim. Vai muito devagarinho até os primeiros alunos poderem dar aula. O clima aqui também não ajuda muito. Mas a capoeira não é um negóçio impossivel. Para aprender, você só precisa de força de vontade. É só uma questão de você querer.

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